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Autoconceito, Perfeccionismo e Profecia Autorrealizante

Dra. Ana Maria Martins Serra, PhD - Instituto de Terapia Cognitiva, São Paulo, SP (2013)



Foto da Dra. Ana Maria Martins Serra

O perfeccionismo é percebido por perfeccionistas como imprescindível para o seu bom desempenho. O perfeccionista argumenta que, se abandonar o perfeccionismo, seu desempenho cairá. O problema é que, como a perfeição é inalcançável, o perfeccionista é um eterno frustrado. Nossa tarefa é convencer o perfeccionista de que, quando ele abandona o perfeccionismo e passa a buscar a excelência, seu desempenho, contrariando sua previsão, se aproxima mais da perfeição do que antes, quando ele a buscava! Como isso ocorre?

O que as seguintes vidas têm em comum?

Alex é um jovem executivo, de 28 anos, admitido por uma empresa de consultoria como um "high potential". Vinha de uma formação em instituições altamente reconhecidas e todos acreditavam que uma carreira de muito sucesso estava por vir. Mas obstáculos se interpuseram em seu caminho: devido a uma crítica de seu gestor, Alex desenvolveu a crença de que não falava com clareza e de que sua fala, em reuniões, evidenciava incapacidade. O tão esperado sucesso repentinamente pareceu estar em risco e cada vez mais distante, sem que ele estivesse encontrando estratégias que lhe permitissem retomar o trajeto inicialmente projetado.

Alice, uma médica cirurgiã de 34 anos, casada, pretendendo tornar-se mãe. Formou-se em universidade de excelência, onde completou sua residência com professores internacionalmente reconhecidos. Alice é reconhecida como altamente competente por pares e professores. Entretanto, sofre com sua insegurança, esquiva-se de algumas cirurgias, angustia-se a cada nova cirurgia, e prefere auxiliar colegas em suas cirurgias do que executar as próprias. Ela vem tentando superar essas dificuldades, obter o êxito profissional que merece, e ainda sentir-se livre para viver a maternidade.

Vários aspectos dos exemplos acima refletem a interação adversa entre três conceitos, que, embora pouco reconhecidos, inconscientemente afetam aqueles em busca de sucesso, independentemente da área de atuação. São eles: autoconceito, perfeccionismo e profecia autorrealizante.

Autoconceito

Esse construto refere-se ao conceito que cada pessoa tem sobre si, a opinião que tem sobre as mais diversas facetas de sua personalidade e de seu comportamento, o quanto a pessoa se valoriza, o quanto acredita que vem atingindo seus próprios padrões de expectativa e as expectativas que acredita que outros têm de si.

O impacto que os comportamentos de uma pessoa têm sobre o seu ambiente social, conforme percebido por essa pessoa, é grandemente responsável pelo desenvolvimento de seu autoconceito. Além disso, um autoconceito positivo, desenvolvido desde muito cedo, é essencial para a adaptação e ajustamento de indivíduos e para a sua experiência de realização e bem-estar.

Autoconceito é popularmente confundido com autoestima. Contudo, enquanto o construto "autoconceito" refere-se ao que o indivíduo pensa sobre si, o construto "autoestima" refere-se ao que o indivíduo sente por si, o quanto ele estima a si próprio. Nosso foco, como profissionais de saúde e de coaching, é o desenvolvimento e fortalecimento de um autoconceito positivo, porquanto todo aquele que tiver um sólido autoconceito positivo, isto é, pensar positivamente a seu respeito, fatalmente e inevitavelmente terá uma alta autoestima, ou seja, se estimará. Por outro lado, de nada adianta esforçar-se para elevar sua autoestima, se seu autoconceito for negativo.

O autoconceito de cada pessoa desenvolve-se desde muito cedo, em um processo de construção contínua, tendo como foco quatro grandes dimensões: capacidade/competência, adequação/imagem social, estima/amabilidade e segurança/autoconfiança. A primeira dimensão - capacidade/competência - refere-se a quanto o indivíduo, com base em suas experiências, acredita-se capaz intelectualmente, profissionalmente, academicamente, nos esportes, dentre outras áreas. A segunda - adequação/imagem social - refere-se a quanto o indivíduo acredita-se socialmente adequado, interessante, bonito, elegante, socialmente valorizado, que projeta uma imagem social positiva. A terceira dimensão - estima/amabilidade - refere-se a quanto o indivíduo se considera estimado, amado por outros, e o quanto acredita que reúne os atributos para ser amado. Quanto à quarta dimensão, esta, em um nível secundário, refere-se à segurança e autoconfiança daquele que se percebe como capaz, adequado e amado, e daquele que, consequentemente, terá também uma alta autoestima.

Evidencia-se, no quadro acima, o fato de que o autoconceito de um sujeito resulta de um processo altamente subjetivo, o qual, por sua vez, é influenciado por outro importante processo, igualmente subjetivo, qual seja, a definição de suas expectativas. As expectativas que um sujeito tem de si, frente às mais diversas tarefas e desafios, afetam significativamente o seu autoconceito. Ele tenderá a ter um autoconceito positivo quanto mais ele avaliar que está alcançando suas expectativas. Inversamente, ele tenderá a ter um autoconceito negativo quanto mais ele se perceber como falhando em atingir suas próprias expectativas. Contudo, é importante notar que as suas expectativas, subjetivamente definidas, podem não ser realistas; podem, por exemplo, ser altas demais. Nesse caso, o indivíduo falhará em atingir suas expectativas, nas quatro dimensões de seu autoconceito, não porque tenha efetivamente um déficit em capacidade, adequação, estima e autoconfiança, mas porque suas expectativas são excessivamente altas, não realistas, portanto inatingíveis. Porém, em ambos os casos - um déficit subjetivamente percebido ou expectativas subjetivamente distorcidas - o resultado poderá ser um autoconceito negativo.

Perfeccionismo e Fracasso

Perfeccionismo está associado à pressuposição de que a perfeição é atingível, pode ser alcançada e deve ser perseguida. O perfeccionista acredita que nada menos do que a perfeição deve ser aceito. A grande falha conceitual, cometida por perfeccionistas, é não reconhecer que a perfeição não é atingível. É não reconhecer que tudo o que fazemos e somos, neste momento, poderá, hoje ou no futuro, ser melhorado, ampliado, aperfeiçoado.

O perfeccionista, portanto, é um eterno insatisfeito, que sempre falhará em atingir suas expectativas perfeccionistas e excessivamente altas, que resultam em um autoconceito negativo. Ele falha em perceber que não há necessariamente um déficit em seu desempenho, nas áreas primárias da capacidade, adequação ou estima. Seu problema, na realidade, está associado a uma falha na sua definição de expectativas, que estaria sanada caso ele substituísse a expectativa da perfeição pela expectativa da excelência - o máximo que posso ser ou fazer diante das minhas atuais circunstâncias de vida - esta, sim, alcançável.

A interação entre déficit percebido e falha em atingir expectativas é recíproca: quanto mais alta é sua expectativa, mais o sujeito falha em alcançá-la e mais seu autoconceito negativo é reforçado. Quanto mais seu autoconceito negativo é reforçado, mais o sujeito eleva suas expectativas, raciocinando: "efetivamente, não sou tão capaz/adequado/estimado quanto deveria ser; mas se eu tentar, 'perfeccionisticamente' sê-lo, eu conseguirei", raciocínio que reforça ainda mais a sua busca da perfeição.

Em nossa primeira vinheta, acima, Alex ilustra bem esse dilema. Ele foi criticado pelo gestor, após uma reunião, dizendo que sua fala não havia sido clara e este representava um aspecto em que ele necessitava melhorar. Alex, sentindo-se vulnerável diante dessa crítica, falhou em processar o grande volume de evidências que apontavam para a sua reconhecida competência, fixando-se em apenas um item - a suposta falta de clareza verbal - o que influenciou negativamente seu autoconceito. A partir daí, ele passou a concentrar sua atenção em escolher termos e formular orações com a finalidade de expressar-se com maestria, negligenciando o fator mais importante: o conteúdo que desejava transmitir. O resultado foi um déficit na formulação e coordenação de suas ideias, o que reforçou sua crença de incapacidade verbal e a crença de que deveria esmerar-se ainda mais - ou seja, elevou expectativas. A ansiedade, como era de se esperar, fatalmente se apresentou e se interpôs à realização de sua meta de expressar-se com perfeição. Em resultado, Alex, na espera da expressão perfeita, vinha evitando falar em reuniões.

O plano terapêutico para o problema de Alex concentrou-se no desafio de várias crenças disfuncionais. Primeiro, foi desafiada a crença de que ele não era suficientemente capaz em sua produção verbal, o que deu lugar a crenças de que ele era muito capaz em várias áreas, para diferentes tarefas e desafios; apenas não era perfeito. Isso lhe possibilitou a reabilitação de seu autoconceito e um ajuste de expectativas. Segundo, atuou-se sobre a pressuposição disfuncional de que, se tentasse falar com perfeição, concentrando-se em cada termo ou expressão, ele superaria a suposta falha de expressão verbal. Isto resultou no reconhecimento de que o fundamental era a geração de conteúdo e formulação de ideias, o que lhe possibilitou deslocar sua atenção da estética verbal para o conteúdo de sua comunicação. Terceiro, atuou-se em direção ao reconhecimento de que a estratégia que vinha adotando, de esquivar-se de comunicar suas ideias, a não ser que o fizesse com perfeição, apenas agravava seu desempenho geral, ao privá-lo de contribuir às reuniões, o que lhe possibilitou voltar a participar e contribuir aos trabalhos de seu grupo. Quarto, conduziu-se um teste de realidade, referente à crença de que ele não se expressava com clareza. Esse teste foi conduzido durante a sessão, com o terapeuta, e fora da sessão, com sua mãe, sua namorada e um amigo, em que Alex expunha algo e o interlocutor descrevia a ele o que havia entendido. Em todos os casos, quando os interlocutores repetiram a Alex o que haviam compreendido, ficou claro que a compreensão dos interlocutores correspondia à sua intenção de comunicação.

Profecia autorrealizante

A seguir, apresentaremos como o abandono do perfeccionismo, ao invés de resultar em prejuízo no desempenho, resulta em uma elevação no desempenho e a uma maior aproximação à meta da perfeição.

Iniciemos por definir o conceito de profecia autorrealizante (em Inglês, "self-fulfilling prophecy"). Esse conceito se refere à pressuposição de que, ao profetizarmos um determinado evento ou resultado, o ato de profetizar atua para a realização da profecia. O conceito é confundido com o pensar positivo ou o poder do pensamento positivo, mas essa suposição é falsa. O conceito de profecia autorrealizante é explicado logicamente.

Quando um indivíduo profetiza um sucesso no desempenho de uma tarefa, seu estado disposicional positivo - motivação, calma, segurança - concorrem para a expressão de sua competência em seu desempenho. Ao contrário, quando ele profetiza insucesso, seu estado disposicional negativo - tristeza, ansiedade, desmotivação - atua como obstáculo à expressão de sua competência em seu desempenho. Estamos nos referindo a sua real competência e capacidades.

Em qualquer empreitada, seja nas esferas familiar, social, afetiva, profissional, acadêmica, esportiva, e outras, há três ingredientes principais para o sucesso: a competência, a motivação e a autoconfiança.

A aquisição da competência, seja em qualquer área, é fundamental para o sucesso. Ninguém consegue atingir o sucesso em uma modalidade esportiva, ou alcançar um objetivo profissional, sem desenvolver competência na área específica de atuação. Contudo, a competência em si não é suficiente para o sucesso; há competentes bem-sucedidos e competentes mal sucedidos. Isso intrigou os estudiosos por um tempo, até que fosse proposto um segundo ingrediente: a motivação. Essa variável, definida como o impulso em direção à realização de uma tarefa ou à superação de desafios, resultou em uma ênfase exagerada a programas de desenvolvimento de motivação. Qualquer gestor ou professor que não se empenhasse em desenvolver a competência em seus colaboradores e alunos era visto como desatualizado. Contudo, ainda assim, alguns competentes motivados eram bem-sucedidos, enquanto que outros não. Na busca de uma terceira variável, que pudesse explicar e predizer o sucesso, chegou-se ao construto de autoconfiança, ou simplesmente otimismo. Não basta ter capacidade; para ser bem-sucedido, o indivíduo necessita acreditar em sua capacidade, confiar em suas competências e habilidades, enfim ser autoconfiante. O indivíduo otimista e autoconfiante é aquele que acredita na possibilidade de sucesso mesmo na ausência de provas concretas; enquanto que o pessimista é aquele que não acredita na possibilidade de sucesso, mesmo na presença de provas concretas.

O otimista se esforça por adquirir competência em determinada área, imprime motivação em seu desempenho; e, além disso, confia em sua competência e motivação a fim de que elas possam se materializar em seu desempenho. De que forma? Quando acredito em minha competência, meu estado disposicional é positivo, o que concorre para a expressão máxima de minha competência no meu desempenho. Ao contrário, quando não confio em minha competência, essa descrença está associada a um estado disposicional negativo, que envolve ansiedade, tristeza e desmotivação, estado que atua como um obstáculo à materialização de minha competência em meu desempenho. Otimistas, como todos, podem fracassar; mas, diante de fracassos, levantam-se e persistem, tantas vezes quantas necessárias, até atingirem sua expectativa de sucesso.

Grandes realizadores são proficientes não apenas em garantir a competência, a motivação e a autoconfiança, mas também em adiar gratificação, outro importante conceito: investir esforços hoje para colher dividendos no futuro. Adiam gratificação porque, otimistas, acreditam na possibilidade de sucesso mesmo na ausência de provas concretas. E, diante de falhas, persistem até atingir o almejado sucesso.

Voltando aos perfeccionistas, eles tendem a ser pessoas com um autoconceito negativo, associado ao fato de que falham em atingir suas expectativas, devido a que essas são excessivamente altas, portanto inatingíveis. Em associação ao autoconceito negativo e a expectativas não realistas e excessivamente elevadas, eles experienciam frequentemente o insucesso, o que reforça suas crenças de incapacidade, inadequação e não estima e desestimula a autoconfiança. Como estratégia compensatória, eles elevam ainda mais suas expectativas, resultando em mais fracassos. Sua profecia de insucesso torna-se frequente, gerando o estado disposicional negativo, que atua como obstáculo à expressão de suas competências e ao consequente fracasso em atingir suas expectativas. Por outro lado, ao abandonar a busca da perfeição e definir expectativas realistas, reforçam seu autoconceito positivo, acreditam na própria competência, geram profecias positivas, que resultam em um estado disposicional positivo, que favorece a expressão máxima de sua competência em seu desempenho e, dessa forma, favorecem o sucesso. Dessa forma, fecha-se o círculo virtuoso.

Finalizando, revisitemos o caso da Alice, a jovem cirurgiã, que hoje reporta com alegria que atua em muitas cirurgias e que prefere conduzir as próprias. Inicialmente, por um lado, abandonando o perfeccionismo e gerando expectativas realistas, e, por outro, reconhecendo o grande volume de evidências, antes negligenciado, que atestava sua destacada capacidade, ela foi capaz de elevar seu autoconceito. Com um autoconceito positivo, abandonou a estratégia compensatória da esquiva de suas próprias cirurgias, o que lhe permitiu oportunidades mais frequentes de testar sua capacidade e confiar em suas competências e habilidades. Fazendo profecias positivas para as suas cirurgias, sentia-se mais tranquila, feliz e segura para conduzi-las, o que favorecia a expressão de suas competências e habilidades em seu desempenho. Hoje ela é uma feliz cirurgiã, muito requisitada, e está no sétimo mês de gestação de um menino!

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